Anexo III vs Anexo V: Comparativo Definitivo para Médicos PJ em 2026, Como Sair de 15,5% para 6% Sem Perder Receita

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Felipe Dutra Nicácio

· 14 min

Saúde PJ

Fórmula do Fator R, alíquotas faixa por faixa, simulação numérica para clínica de R$ 50 mil/mês e protocolo de calibragem do pró-labore para migrar do Anexo V para o Anexo III.

Médica comparando dois documentos lado a lado em consultório com estetoscópio sobre papelada do DAS
✦Resposta Direta
O Anexo V (alíquota inicial 15,5%) e o Anexo III (alíquota inicial 6%) do Simples Nacional são definidos pelo Fator R, calculado como (folha de pagamento + pró-labore + encargos dos últimos 12 meses) ÷ receita bruta dos últimos 12 meses. Quando esse índice atinge 28%, a clínica médica migra automaticamente para o Anexo III. Para uma clínica que fatura R$ 50 mil/mês, a diferença é de R$ 4.750 por mês, R$ 57 mil por ano. Em quase todos os casos acima de R$ 30 mil/mês de receita, calibrar o pró-labore para atingir 28% gera economia líquida positiva mesmo descontando o INSS e o IRPF adicionais.
Premissas: Análise voltada a médicos PJ, dentistas PJ e clínicas da Grande SP enquadrados no Simples Nacional. Quadro válido para LC 123/2006 e LC 155/2016 conforme texto vigente. Não substitui consultoria contábil sobre o caso concreto.

Em 35 anos atendendo profissionais de saúde da Grande São Paulo, vejo o mesmo padrão se repetindo: o médico abriu sua PJ com pró-labore mínimo, R$ 1.500, R$ 2.000, às vezes apenas o salário-mínimo, para "economizar INSS". A clínica cresce, fatura R$ 30 mil, R$ 40 mil, R$ 60 mil por mês. E o DAS continua com alíquota de 15,5% no Anexo V, porque o Fator R nunca foi recalibrado para acompanhar o crescimento.

O resultado é silenciosamente caro. Em uma clínica que fatura R$ 50 mil/mês, manter o Anexo V quando o Anexo III seria possível custa R$ 4.750 por mês, R$ 57 mil por ano. Em cinco anos, são quase R$ 300 mil que poderiam ter sido reinvestidos na operação. O custo é silencioso porque o médico nunca compara a alíquota efetiva do DAS atual com a alíquota possível com Fator R calibrado.

Este artigo aplica a fórmula do Fator R ao perfil padrão das clínicas que atendemos em Osasco, Barueri e Cotia, mostra o protocolo prático de calibragem do pró-labore e expõe os riscos de migração mal feita. Sem palpite, com tabela numérica.

A fórmula do Fator R e o gatilho de 28%

O Fator R é definido na LC 123/2006 (com alterações da LC 155/2016, art. 18, §5º-J) como a razão entre folha de pagamento e receita bruta, ambas acumuladas nos últimos 12 meses:

Fator R = (Folha últimos 12 meses) ÷ (Receita bruta últimos 12 meses) × 100

Quando esse índice atinge ou supera 28%, a clínica migra automaticamente para o Anexo III no mês seguinte. Quando cai abaixo de 28%, retorna ao Anexo V. A apuração é mensal e usa janela móvel, ou seja, a cada mês o cálculo considera os 12 meses anteriores.

A "folha de pagamento" para fins de Fator R inclui: salários de funcionários CLT, encargos patronais (INSS, FGTS), 13º salário e férias proporcionais, e também o pró-labore do sócio-médico, desde que devidamente registrado em folha com retenção de INSS (11% até o teto) e IRRF aplicável. Essa última inclusão é a alavanca principal de calibragem: para a maioria das clínicas, o caminho mais rápido para chegar aos 28% é aumentar o pró-labore, não contratar funcionários CLT adicionais.

Alíquotas faixa por faixa: Anexo III vs Anexo V

O Simples Nacional aplica alíquotas progressivas conforme a receita bruta dos últimos 12 meses. As tabelas a seguir são as vigentes em 2026 (LC 123/2006, com atualizações da LC 155/2016 e Resolução CGSN 140/2018).

Anexo III (Fator R ≥ 28%)

Faixa Receita bruta (12 meses) Alíquota nominal Dedução
1ª Até R$ 180.000 6% R$ 0
2ª R$ 180.000 a R$ 360.000 11,2% R$ 9.360
3ª R$ 360.000 a R$ 720.000 13,5% R$ 17.640
4ª R$ 720.000 a R$ 1.800.000 16% R$ 35.640
5ª R$ 1.800.000 a R$ 3.600.000 21% R$ 125.640
6ª R$ 3.600.000 a R$ 4.800.000 33% R$ 648.000

Anexo V (Fator R < 28%)

Faixa Receita bruta (12 meses) Alíquota nominal Dedução
1ª Até R$ 180.000 15,5% R$ 0
2ª R$ 180.000 a R$ 360.000 18% R$ 4.500
3ª R$ 360.000 a R$ 720.000 19,5% R$ 9.900
4ª R$ 720.000 a R$ 1.800.000 20,5% R$ 17.100
5ª R$ 1.800.000 a R$ 3.600.000 23% R$ 62.100
6ª R$ 3.600.000 a R$ 4.800.000 30,5% R$ 540.000

Observação: a alíquota efetiva é sempre inferior à nominal porque há dedução por faixa. Para clínica que fatura R$ 50 mil/mês (R$ 600 mil/ano), a alíquota efetiva é 6% no Anexo III (pois fica na primeira faixa após dedução) e 15,5% no Anexo V, diferença real de 9,5 pontos percentuais.

Simulação numérica: clínica de R$ 50 mil/mês

Aplicamos a comparação a um perfil real e recorrente: clínica médica em Osasco, faturamento bruto de R$ 50 mil/mês (R$ 600 mil/ano), 1 médico sócio-titular, 2 funcionárias CLT (recepcionista e enfermeira) com folha total de R$ 4.500/mês.

"Em 35 anos, raramente vimos um caso em que o Anexo V fosse genuinamente a melhor escolha após simulação completa para uma clínica acima de R$ 30 mil/mês. Quando o resultado é o Anexo V, quase sempre é porque o pró-labore não foi calibrado. Minha mãe Ângela ensinava que o regime tributário pior é o que você herda sem questionar."

Cenário A, Pró-labore mínimo (R$ 1.500/mês)

Folha total: R$ 4.500 (CLT) + R$ 1.500 (pró-labore) + ~R$ 1.300 (encargos) = R$ 7.300/mês. Anualizado: R$ 87.600. Fator R = 87.600 ÷ 600.000 = 14,6% para enquadramento Anexo V para DAS mensal aproximado de R$ 7.750.

Cenário B, Pró-labore calibrado (R$ 9.000/mês)

Folha total: R$ 4.500 (CLT) + R$ 9.000 (pró-labore) + ~R$ 4.000 (encargos sobre folha) = R$ 17.500/mês. Anualizado: R$ 210.000. Fator R = 210.000 ÷ 600.000 = 35% para enquadramento Anexo III com folga para DAS mensal de R$ 3.000.

Item Cenário A (mínimo) Cenário B (calibrado)
Pró-labore R$ 1.500 R$ 9.000
Folha total CLT + sócio + encargos R$ 7.300 R$ 17.500
Fator R apurado 14,6% (Anexo V) 35% (Anexo III)
DAS mensal R$ 7.750 R$ 3.000
INSS sócio (11%, retido) R$ 165 R$ 990
IRPF sócio sobre pró-labore R$ 0 ~R$ 935
Custo tributário total mensal R$ 7.915 R$ 4.925

Diferença líquida: R$ 2.990/mês a favor do Cenário B. Em 12 meses: R$ 35.880 de economia. Em 5 anos: quase R$ 180 mil. Esse cálculo já considera o INSS adicional e o IRPF pessoal sobre o pró-labore maior.

Protocolo de calibragem do pró-labore

A calibragem do Fator R não é apenas "aumentar o pró-labore". É um protocolo em quatro etapas que precisa ser aplicado com cuidado para não gerar surpresas no IRPF anual ou no fluxo de caixa pessoal do sócio.

Etapa 1, Diagnóstico do Fator R atual

Pegue o DAS dos últimos 3 meses e a folha de pagamento dos últimos 12 meses. Calcule (folha + pró-labore + encargos) ÷ receita bruta. Se está abaixo de 28%, a clínica está no Anexo V. Se está entre 28% e 30%, está no Anexo III com baixa margem (qualquer mês de receita atípica derruba para o V).

Etapa 2, Cálculo do pró-labore-alvo

Defina o Fator R-alvo (recomendamos 32% a 35% para folga operacional). Subtraia da folha atual o pró-labore vigente, calcule o pró-labore necessário pela fórmula inversa. Considere encargos patronais sobre o pró-labore (20% INSS patronal isento no Simples, mas calcule sempre o cenário com e sem isenção).

Etapa 3, Ajuste do contrato social e fluxo

O aumento de pró-labore deve ser formalizado por alteração de contrato social ou ata de reunião de sócios (dependendo do tipo societário). Atualize o sistema de folha. Verifique impacto no fluxo de caixa pessoal, pró-labore mais alto significa mais dinheiro saindo da PJ todo mês.

Etapa 4, Acompanhamento mensal

Por 12 meses, monitore o Fator R apurado a cada DAS. Se cair abaixo de 28%, ajuste imediatamente. A janela móvel de 12 meses faz a calibragem ser gradual, espere até o sexto mês para ver consolidação parcial e até o décimo segundo para ver o regime se estabilizar no Anexo III.

Riscos e armadilhas na migração

Resumo estratégico

  • ✓O Fator R define em qual anexo do Simples sua clínica é tributada, 6% no Anexo III ou 15,5% no Anexo V.
  • ✓O gatilho é 28%: folha (incluindo pró-labore) ÷ receita bruta dos últimos 12 meses.
  • ✓Para clínica de R$ 50 mil/mês, calibrar Fator R economiza R$ 35.880/ano após considerar INSS e IRPF adicionais.
  • ✓Pró-labore é a alavanca mais rápida de calibragem, não precisa contratar funcionário CLT.
  • ✓Calibre para 32-35%, não para 28% justos, para absorver oscilações naturais.
  • ✓Migração consistente leva 6-12 meses pela janela móvel de 12 meses.
  • ✓Revisão anual obrigatória de Fator R + regime em outubro/novembro de cada ano.
⚠️ Aviso Legal: Este conteúdo é informativo e educativo. A legislação é complexa e pode sofrer alterações. Nenhuma decisão deve ser tomada sem consulta a um contador habilitado e análise do seu caso específico. Seus dados de contato são tratados nos termos da LGPD e da Política de Privacidade da Contabilidade Stella.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Como sei se minha clínica médica está hoje no Anexo III ou no Anexo V?
Olhe o seu DAS dos últimos três meses, a guia discrimina o anexo aplicado e a alíquota efetiva. Se a alíquota está em torno de 6% nas primeiras faixas, é Anexo III. Se está em 15,5% ou mais, é Anexo V. A contabilidade também tem essa informação no relatório mensal. A definição depende do Fator R: (folha de pagamento + encargos dos últimos 12 meses) ÷ receita bruta dos últimos 12 meses ≥ 28% para Anexo III.
O pró-labore do sócio-médico entra no cálculo do Fator R?
Sim. A Resolução CGSN 140/2018, em conjunto com a LC 123/2006, considera pró-labore como parte da folha de pagamento para fins de Fator R, desde que devidamente registrado em folha com retenção de INSS e IRRF. Essa é a alavanca principal de calibragem para a clínica médica: aumentar pró-labore eleva o Fator R sem necessariamente contratar pessoal CLT adicional.
Quanto tempo leva para migrar do Anexo V para o Anexo III após calibrar o pró-labore?
A apuração é mensal e usa janela móvel dos últimos 12 meses. Se hoje seu Fator R está em 18% e você precisa chegar a 28%, o aumento de pró-labore começa a refletir no mês seguinte, mas a média móvel só se consolida ao longo de até 12 meses. Na prática, a migração consistente para o Anexo III leva entre 6 e 12 meses, dependendo da defasagem inicial.
Vale a pena aumentar o pró-labore só para ficar no Anexo III?
Em quase todos os casos acima de R$ 30 mil/mês de receita, sim. O aumento de pró-labore gera INSS adicional (20% patronal + 11% do sócio até teto) e IRPF pessoal, mas a economia no DAS (de 15,5% para 6%) costuma superar esses custos por margem de 3 a 1 ou maior. A simulação numérica precisa ser feita caso a caso, não basta aplicar regra geral.
Posso ficar oscilando entre Anexo III e Anexo V mês a mês?
Sim, e isso é o pior cenário. Se o Fator R fica próximo de 28% sem margem de segurança, basta um mês de receita atípica (faturamento alto) para cair no Anexo V e pagar 15,5%. A boa prática é manter Fator R com folga, entre 30% e 35%, para absorver oscilações naturais sem cair no Anexo V.

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PJ médica · Clínicas · Reforma tributária · Planejamento tributário

Categoria: Saúde PJ
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Felipe Dutra Nicácio

CEO da Contabilidade Stella · CRC-SP

CEO da Contabilidade Stella, segunda geração após a fundadora Ângela Stella. Especialista em planejamento patrimonial e sucessório com mais de 35 anos de tradição da casa.

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