Reforma Tributária 2026 para Transportadoras: O Que Muda no Transporte de Cargas até 2033 e Por Que Preparar a Operação Agora
Felipe Dutra Nicácio
· 16 min
A LC 214/2025 está em vigor. O transporte de cargas não tem a redução de 60% dos passageiros, mas ganha crédito pleno sobre diesel, pedágio, pneus e manutenção. Veja o que muda até 2033.

DOSSIÊ TÉCNICO · TRANSPORTE DE CARGAS 2026
Foco Regional: Osasco, São Paulo, Barueri, Cotia, Guarulhos
Tempo de leitura: 16 min.
Resposta Direta
A Lei Complementar 214/2025 está em vigor e substitui PIS, COFINS, ICMS e ISS por dois tributos novos: a CBS federal e o IBS de estados e municípios. O transporte de cargas não recebe a redução de 60% concedida ao transporte público de passageiros. Ele paga a alíquota padrão, cujo teto legal é de 26,5% (com estimativas de mercado até cerca de 28%). A vantagem real do setor não está na alíquota, e sim na não-cumulatividade plena, que passa a gerar crédito sobre diesel, pedágio, pneus, peças, manutenção, seguro e a própria compra do caminhão. 2026 é ano de teste. A virada que mexe no caixa começa em 2027, e a janela de preparação útil é o último trimestre de 2026.
Premissas: Análise voltada a transportadoras de carga (TRC), embarcadores e transportadores autônomos da Grande São Paulo. Quadro válido para a LC 214/2025 e a EC 132/2023 conforme texto vigente nesta data. Os percentuais de alíquota são estimativas técnicas: 26,5% é o teto fixado em lei e as projeções de mercado trabalham entre 26,5% e 28%. Este material não substitui consultoria contábil ou jurídica formal sobre o caso concreto da sua transportadora.
Neste dossiê você vai encontrar:
- A LC 214/2025 e por que o transporte de cargas não tem redução de 60%
- O cronograma 2026 a 2033: o que muda em cada ano
- O fim do crédito presumido de ICMS e a não-cumulatividade plena
- Simulação: transportadora de R$ 200 mil/mês
- Split payment e o aperto de caixa do frete
- A janela de preparação: o último trimestre de 2026
Quem toca uma transportadora na Grande São Paulo já perdeu a conta de quantas siglas fiscais atravessou. ICMS interestadual, DIFAL, substituição tributária, crédito outorgado, guerra fiscal entre estados: cada rota nova trazia uma regra nova. A Reforma Tributária promete varrer boa parte dessa confusão. Mas trocar a confusão antiga por uma nova, sem entender a mecânica, custa caro em um setor que trabalha com margem apertada e caixa curto.
Nos meus atendimentos com transportadoras de Osasco, Barueri e Guarulhos, começo sempre desfazendo um mal-entendido. Muita gente ouviu que a Reforma deu tratamento favorecido ao transporte e concluiu que o frete vai ficar mais barato de imposto. Não é isso. O benefício da redução de 60% foi desenhado para o transporte público de passageiros, aquele ônibus urbano que leva o trabalhador para o serviço. O transporte de cargas ficou na alíquota cheia. O que muda o jogo para a carga é outra coisa: o direito de creditar cada real de imposto embutido no diesel, no pedágio, no pneu e na manutenção.
Este dossiê explica, sem promessa fácil, o que a LC 214/2025 realmente faz com a sua operação. Mostra o cronograma ano a ano até 2033, o fim do velho crédito presumido de ICMS, a chegada da não-cumulatividade plena, uma simulação numérica de referência e o que precisa ser feito no último trimestre de 2026 para não ser pego de surpresa na virada de 2027.
A LC 214/2025 e por que o transporte de cargas não tem redução de 60%
O que a Lei criou
A Lei Complementar 214, sancionada em 16 de janeiro de 2025 a partir do PLP 68/2024, regulamentou a Emenda Constitucional 132/2023 e instituiu três tributos novos sobre o consumo, em substituição progressiva ao PIS, à COFINS, ao ICMS e ao ISS:
- CBS, a Contribuição sobre Bens e Serviços, de competência federal, que substitui PIS e COFINS;
- IBS, o Imposto sobre Bens e Serviços, de competência compartilhada entre estados e municípios, que substitui ICMS e ISS;
- IS, o Imposto Seletivo, cobrado sobre bens e serviços específicos prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. O frete de cargas não é alvo do Imposto Seletivo.
A lógica central da Reforma é a não-cumulatividade plena: o imposto pago em cada etapa da cadeia vira crédito na etapa seguinte, e a tributação recai apenas sobre o valor que cada elo efetivamente agrega. Para um setor como o transporte, que compra muito insumo tributado (combustível acima de tudo), essa mudança de arquitetura vale mais do que qualquer redução de alíquota.
O ponto que confunde: passageiro sim, carga não
A LC 214/2025 concede redução de 60% sobre a alíquota de referência para um conjunto de setores considerados essenciais: saúde, educação, medicamentos, produção rural e o transporte público coletivo de passageiros. É aqui que mora a confusão. O transporte que ganhou tratamento favorecido é o de passageiros em caráter urbano, semiurbano e metropolitano. O transporte rodoviário de cargas ficou de fora dessa redução e paga a alíquota padrão do IBS+CBS.
Vale dizer isso com todas as letras para não vender ilusão: se alguém prometeu que a Reforma reduz em 60% o imposto do seu frete, essa informação está errada. A carga entra na alíquota cheia. O que a torna competitiva é o crédito amplo sobre insumos, que veremos em detalhe adiante.
De quanto é a alíquota padrão
A EC 132/2023 fixou um teto de referência para a soma de IBS+CBS em 26,5%. Esse é o número que a Constituição usa como trava. As projeções técnicas de mercado, feitas por consultorias e pelo próprio governo ao longo de 2024 e 2025, trabalham com uma faixa que vai de 26,5% a cerca de 28%, a depender da calibragem final do Comitê Gestor do IBS. Como observou a análise da PwC sobre a Reforma do consumo, o percentual exato só será conhecido quando o sistema estiver rodando e a arrecadação real puder ser medida.
Por isso, ao longo deste dossiê, tratamos 26,5% como o teto legal e usamos a faixa de 26,5% a 28% como estimativa. Nenhum número aqui deve ser lido como alíquota fechada. O que importa para a transportadora não é decorar o percentual nominal, e sim entender que ele incide sobre o frete e é abatido pelos créditos dos insumos.
O cronograma 2026 a 2033: o que muda em cada ano
A Reforma não vira de uma vez. A transição foi desenhada para acontecer em etapas, com os tributos novos subindo devagar e os antigos descendo na mesma proporção. Para a transportadora, entender esse calendário é o que separa a decisão planejada da correria de última hora.
| Ano | CBS / IBS | PIS / COFINS / ICMS / ISS | O que a sua transportadora precisa fazer |
|---|---|---|---|
| 2026 | Teste: CBS 0,9% + IBS 0,1% (1% nominal, compensável) | 100% vigentes | Parametrizar CT-e e NF-e, mapear créditos, decidir o regime de 2027 |
| 2027 | CBS plena substitui PIS/COFINS; IBS ainda a 0,1% | PIS e COFINS extintos; ICMS e ISS integrais | Operar já com CBS cheia e crédito de insumos rodando |
| 2029 a 2032 | IBS sobe em quatro degraus (10%, 20%, 30%, 40%) | ICMS e ISS caem na mesma proporção (90%, 80%, 70%, 60%) | Acompanhar a transição mês a mês e ajustar o fluxo de caixa |
| 2033 | Regime pleno: IBS+CBS na alíquota final | ICMS e ISS extintos | Operação consolidada no modelo único |
O ano decisivo é 2027. É quando a CBS substitui PIS e COFINS de uma só vez, sem gradualismo, e quando o crédito amplo sobre insumos começa a valer de verdade. Em 2029 começa a fase mais delicada: o ICMS vai sendo desligado ano a ano até sumir em 2033, e com ele desaparecem benefícios estaduais que muita transportadora usa hoje, como o crédito presumido do transporte. Esse é o assunto da próxima seção.
2026 é teste, não é cobrança
Convém não superdimensionar 2026. Neste ano, os documentos fiscais eletrônicos passam a destacar as alíquotas simbólicas de teste (CBS 0,9% e IBS 0,1%), conforme os atos do Comitê Gestor e da Receita Federal. O valor é compensável e, na prática, não pesa no caixa. O objetivo é validar sistemas, layouts de CT-e e NF-e e a mecânica de apuração antes que a cobrança real comece. Quem usar 2026 para arrumar a casa entra em 2027 no controle. Quem ignorar vai parametrizar tudo sob pressão em dezembro.
O fim do crédito presumido de ICMS e a não-cumulatividade plena
Como o transporte é tributado hoje
Hoje a transportadora de cargas recolhe ICMS sobre o frete. Uma parte grande do setor abre mão de apropriar créditos reais e opta pelo crédito outorgado (presumido) de 20% previsto no Convênio ICMS 106/1996. Na prática, a empresa aplica a alíquota de ICMS sobre o frete e desconta 20% a título de crédito presumido, sem precisar controlar nota a nota de insumo. É simples, mas tem um preço: quem escolhe o presumido em geral não pode somar outros créditos.
Esse arranjo funcionou por décadas justamente porque o ICMS do transporte é complexo e o presumido evitava a papelada. Com a extinção gradual do ICMS entre 2029 e 2032, o benefício perde o objeto: não há mais imposto sobre o qual aplicar o crédito outorgado. Os detalhes de como cada benefício estadual será tratado na transição ainda estão sendo regulamentados, então convém acompanhar isso como cenário em construção, não como regra fechada.
O que entra no lugar: crédito sobre quase tudo
A LC 214/2025, no artigo 47, estabelece a não-cumulatividade plena com crédito financeiro amplo. Tradução para o pátio: cada real de IBS+CBS embutido no que a transportadora compra vira crédito, abatido do imposto que ela deve sobre o frete. Numa operação de carga, a lista de despesas que geram crédito é longa e cobre o coração do custo:
- Combustível: diesel e biodiesel, o maior item de custo de qualquer frota;
- Rodagem: pneus novos e recapagem, câmaras, alinhamento e balanceamento;
- Manutenção e peças: oficina, motor, freios, filtros, óleo lubrificante, peças de reposição;
- Pedágio e infraestrutura: tarifas de pedágio e vale-pedágio obrigatório da carga;
- Seguro: seguro do veículo e seguro da carga (RCTR-C e RCF-DC);
- Ativo imobilizado: a aquisição do caminhão, da carreta e de equipamentos gera crédito sobre o valor pago;
- Tecnologia e gestão: rastreamento, telemetria, roteirizador, software de gestão de frota, sistema fiscal.
O que não gera crédito é a folha: salários de motoristas e ajudantes, encargos e pró-labore não têm IBS+CBS embutido. Há ainda uma condição importante: o crédito depende do efetivo recolhimento do imposto pelo fornecedor, o que se conecta ao mecanismo de split payment que veremos adiante. A boa notícia é que, numa transportadora, a maior fatia do custo (diesel, pedágio, pneus, manutenção) está exatamente na lista que credita.
"Em 35 anos cuidando de empresas da Grande São Paulo, aprendi que transporte é um negócio de insumo pesado e margem fina. O que sempre doeu no setor foi pagar imposto em cascata sobre custo que já vinha tributado. A não-cumulatividade plena corrige isso na raiz. Quem organizar as notas de diesel, pedágio e manutenção e apropriar cada crédito vai sentir a diferença no caixa. Quem continuar tratando imposto no olho, como muita transportadora ainda faz, vai pagar a alíquota cheia sem colher o crédito que a lei agora garante."
TRANSPORTE DE CARGAS
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Presumido de 20% contra crédito real: quem ganha
A pergunta que toda transportadora faz é direta: perco o presumido de 20%, ganho o quê? A resposta honesta é que depende da estrutura de custo. Numa frota própria, rodando muito, o diesel sozinho já costuma representar de 30% a 40% do custo total, e a soma de diesel, pedágio, pneus e manutenção passa fácil de 50%. Quando o crédito real incide sobre metade ou mais do custo, ele tende a superar com folga os 20% presumidos do modelo antigo. Já numa operação enxuta, que subcontrata muito e tem pouco insumo próprio, a diferença é menor. Por isso a decisão precisa nascer de uma simulação com os seus números, não de uma regra geral.
Simulação: transportadora de R$ 200 mil/mês
Os números a seguir partem de um caso concreto de referência: transportadora de carga sediada em Osasco, faturamento bruto de R$ 200 mil por mês (R$ 2,4 milhões por ano), frota própria de quatro veículos, com custos mensais de diesel na casa de R$ 60 mil, pedágio de R$ 12 mil, pneus, peças e manutenção somando cerca de R$ 20 mil e seguros de R$ 6 mil. Use o quadro como referência de magnitude, não como projeção do seu caso, porque vários parâmetros da transição ainda estão sendo regulamentados.
| Regime | Como incide | Observação para a transportadora |
|---|---|---|
| Simples Nacional (Anexo III) | Alíquota efetiva progressiva sobre o faturamento, com DAS único | Simplicidade máxima, mas o tomador do frete não aproveita crédito cheio |
| Lucro Presumido | IRPJ sobre base de 8% e CSLL sobre base de 12% do frete, mais IBS+CBS | Base presumida baixa do transporte de cargas costuma favorecer margens boas |
| Regime padrão pós-Reforma + créditos | IBS+CBS na alíquota cheia menos crédito de diesel, pedágio, pneus e manutenção | Tende a vencer em frota própria intensiva em insumo tributado |
O ponto que costuma surpreender o dono de transportadora é a presunção do Lucro Presumido. Diferente da maioria dos serviços, que presumem 32% de lucro, o transporte de cargas tem base presumida de IRPJ de apenas 8% e de CSLL de 12%. Isso faz do Lucro Presumido um regime historicamente competitivo para a carga, e ele segue existindo depois da Reforma, agora combinado com o IBS+CBS não-cumulativo. A escolha entre Simples, Lucro Presumido e regime padrão deixou de ser automática: virou uma conta que depende do seu volume de insumo creditável e, principalmente, de quem são seus clientes.
Esse último fator é novo e decisivo. A partir de 2027, um grande embarcador no regime regular vai preferir contratar quem gera crédito cheio de IBS+CBS, porque isso reduz o imposto dele. Uma transportadora no Simples, que não repassa crédito integral, pode ver seu frete perder atratividade para esse tipo de cliente. Não é uma sentença, é um alerta: a decisão de regime em 2027 tem que olhar para dentro (seus custos) e para fora (seus clientes) ao mesmo tempo.
Split payment e o aperto de caixa do frete
Junto com a Reforma chega o split payment, ou pagamento dividido. No momento em que o frete é pago, o valor do IBS+CBS é separado automaticamente e recolhido direto para a conta única da Receita Federal e do Comitê Gestor do IBS. A transportadora recebe o líquido, sem o imposto passar pelo seu caixa.
Para quem estava acostumado a receber o valor cheio e recolher o imposto depois, no mês seguinte, isso muda o fluxo de caixa. Aquele intervalo em que o dinheiro do imposto ficava girando na empresa (o float) desaparece. Em um setor de margem apertada, que muitas vezes financia o diesel da viagem antes de receber o frete, esse aperto é real e precisa entrar no planejamento financeiro de 2027 em diante.
Do ponto de vista operacional, o split payment exige duas adequações concretas na transportadora:
- CT-e e NF-e parametrizados: o Conhecimento de Transporte eletrônico e a nota fiscal precisam destacar IBS e CBS no novo layout, senão o documento vira inválido e o cliente não consegue creditar;
- Controle financeiro segregado: a conciliação bancária tem que separar o que é receita da transportadora do que já saiu como imposto retido, para não superestimar o caixa disponível.
Há um lado bom no split. Como o imposto é recolhido na fonte, o risco de inadimplência tributária cai e a apropriação de crédito pelo cliente fica mais segura, o que reforça a competitividade de quem está com a casa em ordem. O desafio é de tesouraria, não de tributo: é preciso reprogramar o caixa para um mundo em que o imposto sai na hora do recebimento.
A janela de preparação: o último trimestre de 2026
A preparação útil não é o ano de 2026 inteiro. É o último trimestre mais janeiro de 2027. Antes disso faltam dados consolidados do ano-base. Depois disso, a janela de opção de regime para 2027 se fecha. Este é o roteiro que aplicamos com as transportadoras da região.
Outubro/2026, coleta e mapeamento: reunir os 12 meses de CT-e emitidos, notas de diesel, pedágio, pneus e manutenção, extratos e contratos. Medir a carga atual de ICMS e verificar se a empresa usa o crédito presumido de 20%. Classificar cada custo como creditável ou não no novo modelo.
Novembro/2026, simulação dos regimes: aplicar os números reais ao Simples Anexo III, ao Lucro Presumido (base 8% de IRPJ e 12% de CSLL) e ao regime padrão com créditos de IBS+CBS. Comparar carga efetiva, esforço operacional e, sobretudo, o perfil dos clientes. Decidir o regime de 2027.
Dezembro/2026, implementação: parametrizar CT-e e NF-e no novo layout, ajustar o ERP e o sistema fiscal para registrar IBS+CBS destacado nas entradas e nas saídas, organizar o controle de caixa para o split payment e treinar a equipe administrativa.
Janeiro/2027, formalização: formalizar a opção de regime dentro do prazo legal e iniciar a operação já com o crédito de insumos rodando e o CT-e novo em produção.
SIMULAÇÃO
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Simulação dos regimes aplicada ao faturamento e aos custos reais da sua frota.
Perguntas frequentes
O transporte de cargas tem a redução de 60% do IBS+CBS na Reforma?
Não. A redução de 60% e os regimes favorecidos alcançam o transporte público coletivo de passageiros (urbano, semiurbano e metropolitano), não o transporte rodoviário de cargas. A transportadora de cargas paga a alíquota padrão do IBS+CBS. A vantagem real do setor não está na alíquota, e sim na não-cumulatividade plena: diesel, pedágio, pneus, peças, manutenção, seguro e a compra do caminhão passam a gerar crédito, o que derruba a carga efetiva de uma operação intensiva em insumos.
Qual será a alíquota do IBS+CBS para a minha transportadora?
A EC 132/2023 fixou um teto de referência de 26,5% para a soma de IBS+CBS. Projeções técnicas de mercado apontam para algo entre 26,5% e 28% na alíquota padrão. Esse é o percentual nominal, aplicado sobre o valor do frete. Depois de descontados os créditos sobre diesel, pedágio, pneus e manutenção, a carga efetiva de uma transportadora tende a ficar bem abaixo desse número. Trate 26,5% como teto legal e 28% como estimativa técnica, não como valor fechado.
O crédito presumido de ICMS do transporte acaba com a Reforma?
Sim, na transição. Muitas transportadoras usam hoje o crédito outorgado (presumido) de 20% do ICMS previsto no Convênio ICMS 106/1996, em vez de apropriar créditos reais. Como o ICMS é extinto de forma gradual entre 2029 e 2032, esse benefício deixa de existir junto com o imposto. No lugar entra a não-cumulatividade plena do IBS+CBS, com crédito financeiro amplo sobre os insumos. Para operações com muito diesel e pedágio, o crédito real costuma superar os 20% presumidos, mas o efeito depende da estrutura de custos de cada transportadora.
Em 2026 a minha transportadora já paga IBS e CBS?
Praticamente nada em termos financeiros. 2026 é o ano de teste: os documentos fiscais eletrônicos passam a destacar as alíquotas simbólicas de CBS 0,9% e IBS 0,1%, total de 1% sobre o frete, com mecanismos de compensação que zeram ou quase zeram o efeito no caixa. A obrigação real de 2026 é técnica: parametrizar o CT-e e a NF-e, mapear os insumos que gerarão crédito e decidir o regime tributário para 2027. A cobrança de verdade começa em 2027.
Vale a pena continuar no Simples Nacional como transportadora?
Depende de quem são seus clientes. A transportadora de cargas fica no Anexo III do Simples (CNAE 4930-2/02). O Simples segue válido na transição, mas é regime monofásico: o tomador do frete não aproveita crédito de IBS+CBS sobre o que você cobra. Para quem transporta para grandes embarcadores no regime regular, isso pode tornar seu frete menos competitivo a partir de 2027, porque o cliente prefere fornecedor que gere crédito cheio. Para frete a consumidor final ou a pequenas empresas, o Simples segue fazendo sentido. É uma conta que precisa ser refeita caso a caso.
Resumo estratégico
- A LC 214/2025 está em vigor e substitui PIS, COFINS, ICMS e ISS por CBS e IBS, com transição de 2026 a 2033.
- O transporte de cargas não tem a redução de 60%, que é do transporte de passageiros. A carga paga a alíquota padrão (teto legal de 26,5%, estimativas até cerca de 28%).
- A vantagem do setor é a não-cumulatividade plena: diesel, pedágio, pneus, peças, manutenção, seguro e o caminhão geram crédito.
- O crédito presumido de 20% do ICMS (Convênio 106/1996) some com a extinção do ICMS entre 2029 e 2032.
- 2026 é ano de teste (CBS 0,9% + IBS 0,1%). A cobrança real começa em 2027, quando a CBS substitui PIS e COFINS de uma vez.
- O split payment retira o imposto do caixa no recebimento do frete e exige reprogramação financeira e CT-e parametrizado.
- A janela de preparação útil é outubro de 2026 a janeiro de 2027, com decisão de regime olhando custos e perfil de clientes.
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Referências legais
Lei Complementar nº 214/2025, publicada em 16/01/2025 (especialmente art. 47 e Anexos) · Emenda Constitucional nº 132/2023 (arts. 125 a 133 do ADCT) · Convênio ICMS nº 106/1996 (crédito outorgado do transporte) · Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 1/2025 e Resolução CGIBS nº 6/2026 (fase de teste de 2026) · Constituição Federal, art. 156-A e art. 195, V.
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Atualização: Acompanhamos diariamente a regulamentação da LC 214/2025 e os atos do Comitê Gestor do IBS. Este artigo será revisto sempre que houver mudança relevante para o transporte de cargas.
Felipe Dutra Nicácio
CEO da Contabilidade Stella
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Contabilidade consultiva especializada em transportadoras e transporte de cargas. Osasco/SP, atendendo São Paulo, Barueri, Cotia, Guarulhos e toda a Grande SP.
Felipe Dutra Nicácio
CEO — Contabilidade Stella
CEO da Contabilidade Stella, segunda geração após a fundadora Ângela Stella. Especialista em planejamento patrimonial e sucessório com mais de 35 anos de tradição da casa.
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