Pejotização do Médico e o STF (Tema 1.389): o Que Já Vale em 2026, o Que Ainda Não Foi Julgado e Como Contratar PJ Sem Virar Vínculo

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Felipe Dutra Nicácio

· 10 min

Saúde PJ

A decisão do STF no Tema 1.389 sobre pejotização médica segue sem tese final em 2026. Entenda o que muda com o fim da suspensão no 1º grau e como preparar o contrato PJ para a CBS em 2027.

Médico revisando contrato de prestação de serviços em São Paulo no ano de 2026
✦Resposta Direta
Até outubro de 2026, o STF não julgou o mérito do Tema 1.389. A contratação de médico PJ segue lícita com base na ADPF 324, mas a Justiça do Trabalho mantém o poder de anular contratos que mascaram vínculo real de emprego. A principal novidade de 2026 é que a suspensão dos processos foi levantada na primeira instância. Para 2027, o foco muda para a conformidade tributária com a entrada da CBS.
Premissas: Conteúdo informativo para clínicas e profissionais da saúde de São Paulo e região, atualizado até 02/10/2026, considerando o andamento do ARE 1.532.603 no STF e as regras da LC 214/2025. O texto não substitui parecer jurídico ou contábil sobre a realidade da sua empresa.

Contratar e prestar serviços médicos via pessoa jurídica se tornou o padrão no setor da saúde. Clínicas e hospitais precisam de flexibilidade, e os profissionais buscam uma carga tributária racional. O problema surge quando o formato no papel descola da realidade do dia a dia. A linha entre uma prestação de serviço genuína e a chamada pejotização ilícita gera debates intensos no Judiciário brasileiro.

Hoje, os olhos do setor estão voltados para o STF e para a transição dos impostos. Este guia traça o cenário exato da contratação de médico PJ em 2026, separando fatos de suposições. O objetivo é dar elementos para você construir uma base sólida para a próxima geração da sua empresa.

O que o STF já decidiu (ADPF 324 e Tema 725) e o que está em aberto (Tema 1.389)

Para entender o cenário de 2026, precisamos olhar para as decisões que formam a base legal da terceirização no Brasil. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal julgou a ADPF 324 e o Tema 725 da repercussão geral (RE 958.252). A tese fixada confirmou que é lícita a terceirização de qualquer atividade, seja ela meio ou fim, bem como qualquer forma de divisão do trabalho entre pessoas jurídicas distintas. A responsabilidade subsidiária da empresa contratante foi mantida.

Essa decisão ampara o modelo PJ na saúde em tese. Ela confirma que um hospital pode contratar uma empresa médica para gerir o pronto-socorro ou realizar cirurgias. No entanto, ela não concede uma carta branca para fraudes trabalhistas.

O vácuo entre a tese de 2018 e a realidade dos hospitais gerou um conflito contínuo de competência. Em abril de 2025, o STF reconheceu a repercussão geral do Tema 1.389 (ARE 1.532.603, relator Ministro Gilmar Mendes). A questão central debate a competência da Justiça do Trabalho, o ônus da prova nos processos que discutem fraude em contrato civil e a licitude da contratação de PJ.

Momento Marco legal e impacto prático no modelo PJ
2018 ADPF 324 e Tema 725: STF valida a terceirização de qualquer atividade.
Abril de 2025 Tema 1.389: STF reconhece a repercussão geral sobre fraude na pejotização e o relator decreta a suspensão nacional dos processos.
Junho de 2026 O relator levanta a suspensão para o primeiro grau e os TRTs, mantendo-a apenas nas instâncias superiores. Sem tese final definida.
2027 Entrada da CBS cheia e fim do PIS/Cofins, forçando clínicas e médicos a reavaliarem seus contratos sob a nova ótica tributária.

Até a data deste texto, o mérito do Tema 1.389 não tem julgamento concluído. O modelo de terceirização médica depende de provas concretas em cada contrato.

Junho de 2026: a suspensão foi levantada no primeiro grau, e o que isso muda

O andamento do Tema 1.389 trouxe impactos práticos recentes. Após o reconhecimento da repercussão geral, o relator ordenou uma suspensão nacional de todos os processos que tratavam do assunto, paralisando ações em varas e tribunais de todo o país.

Em junho de 2026, por meio de decisão no dia 19 e despacho no dia 23, o cenário mudou. A suspensão foi levantada para o primeiro grau de jurisdição e para os Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs). A restrição de andamento permaneceu restrita às instâncias superiores, como o TST e o próprio Supremo.

Na prática, isso destrava as pautas das varas trabalhistas. Os juízes de cidades como Barueri e São Paulo retomam o poder de ouvir testemunhas, analisar provas documentais e proferir sentenças. As empresas médicas e os hospitais voltam a precisar de defesa sólida na base. A falta de uma tese final do STF obriga as partes a se resguardarem por meio da documentação contratual e da conduta diária, evitando passivos surpresa.

Art. 129 e primazia da realidade: onde o contrato PJ vira vínculo

Muitos profissionais se apoiam no artigo 129 da Lei 11.196/2005 para justificar suas estruturas. A lei estabelece que os serviços intelectuais, inclusive os de natureza científica, podem ser prestados por meio de pessoa jurídica, submetendo-se à tributação de PJ, ainda que existam elementos de pessoalidade e habitualidade.

Essa é uma regra de natureza fiscal. Ela protege a empresa contra autuações da Receita Federal que tentem descaracterizar a PJ para cobrar o Imposto de Renda da pessoa física. A Justiça do Trabalho opera sob outro princípio estrutural, a primazia da realidade.

O TST respeita a ADPF 324 e reconhece a licitude da terceirização em tese, mas continua desconsiderando contratos simulados. Se os fatos provam que a relação jurídica é de emprego disfarçado, o documento formal perde o valor. O vínculo empregatício exige quatro elementos simultâneos, previstos na CLT: subordinação jurídica, pessoalidade, habitualidade e onerosidade. A presença do comando direto, onde a empresa tomadora dita como o médico deve atuar técnica e administrativamente, é o divisor de águas nos processos.

Como o hospital e o médico contratam PJ com menos risco

A Stella atende empresas desde 1990, e a premissa não mudou: segurança se constrói com documento. É a mesma lógica que aplicamos ao médico PJ, com autonomia real e prova no papel.

A contratação segura depende de condutas claras. A estrutura de médico PJ com vários tomadores, atuando em clínicas e hospitais variados, desponta como um forte indicador de independência. Em Guarulhos, notamos que instituições de saúde revisam ativamente suas escalas para afastar traços de subordinação.

Aumenta o risco trabalhista Reduz o risco trabalhista O que documentar na prática
Escala imposta com punição por falta Autonomia técnica e sobre a própria agenda E-mails e trocas de mensagem sobre flexibilidade e horários
Impossibilidade total de substituição Possibilidade real de enviar outro médico da PJ Contrato prevendo a substituição sem veto diretivo do tomador
Exclusividade de fato no serviço PJ prestando serviço a mais de um tomador Notas fiscais emitidas no mês para diferentes clínicas e hospitais
Subordinação a chefias com ordens diretas Atuação focada no objeto contratado Relatórios técnicos das entregas do serviço acordado
Remuneração idêntica a salário com "13º" Pagamento restrito ao serviço prestado Nota fiscal exata por procedimento, hora ou plantão realizado

Estes sinais são interpretados em conjunto pelo Judiciário. A ausência de um não condena automaticamente o contrato, mas o acúmulo de traços de proteção blinda a PJ contra alegações de simulação.

A conta de 2027: PJ médica com 60%, PF fora do IBS/CBS, e o que pesa mais

Resolver o risco trabalhista é apenas a primeira etapa. O planejamento de clínicas em Cotia e em toda a região metropolitana agora cruza o formato da contratação com a Reforma Tributária de 2027 e a entrada da CBS cheia. O ano de 2026 atua como um teste, com a alíquota combinada de IBS e CBS em 0,9% e 0,1%. No próximo ano, o PIS e a Cofins acabam, alterando o custo total da operação.

A Lei Complementar 214/2025 regulamentou os redutores previstos na Constituição. O artigo 130 garante uma redução de 60% nas alíquotas para os serviços de saúde listados no Anexo III, enquadrados pela Nomenclatura Brasileira de Serviços (NBS). Há também o artigo 127, que prevê um redutor de 30% para o serviço de profissão regulamentada. As regras da lei vedam o acúmulo de reduções, forçando a empresa a aplicar o benefício específico da saúde.

A decisão de atuar como pessoa física autônoma ou via pessoa jurídica ganhou novos contornos. O artigo 26 da LC 214 estabelece que a pessoa física que não exerce atividade econômica de forma habitual não é considerada contribuinte do IBS e da CBS. Para os médicos, a prestação contínua configura habitualidade, atraindo o imposto. Na PJ médica optante pelo Simples Nacional, os novos tributos seguem apurados dentro do DAS, exceto para as empresas que formalizaram a opção de recolhimento apartado pelo artigo 41. A janela de adesão ao artigo 41 fechou no último dia 30 de setembro de 2026, com novas opções permitidas apenas para o calendário do CGSN de 2027.

Resumo estratégico

  • ✓O STF validou a terceirização na ADPF 324, amparando o formato PJ em tese.
  • ✓O Tema 1.389 discute o limite dessa contratação e segue sem mérito julgado.
  • ✓O levantamento da suspensão em junho de 2026 destrava os processos no primeiro grau.
  • ✓A primazia da realidade permite à Justiça desconsiderar contratos que camuflam subordinação.
  • ✓A LC 214 consolida a redução de 60% para serviços de saúde da PJ médica para o IBS e a CBS.
  • ✓A transição de 2027 exige contratos sólidos, que reflitam autonomia técnica real do médico.
⚠️ Aviso Legal: Este conteúdo é informativo e educativo. A legislação é complexa e pode sofrer alterações. Nenhuma decisão deve ser tomada sem consulta a um contador habilitado e análise do seu caso específico. Seus dados de contato são tratados nos termos da LGPD e da Política de Privacidade da Contabilidade Stella.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O STF já decidiu definitivamente sobre a pejotização de médicos no Tema 1.389?
Até outubro de 2026, o STF não julgou o mérito nem fixou a tese final do Tema 1.389. O que existe é o reconhecimento da repercussão geral e uma decisão de junho de 2026 que levantou a suspensão dos processos trabalhistas no primeiro e segundo graus.
Um contrato PJ de médico pode ser anulado pela Justiça do Trabalho?
Sim. A terceirização é lícita segundo o STF, mas a Justiça do Trabalho aplica o princípio da primazia da realidade. Se houver subordinação direta, pessoalidade, punição por falta e remuneração nos moldes de salário, o contrato PJ é anulado e o vínculo é reconhecido.
Quais são os sinais que reduzem o risco de vínculo na contratação de médico PJ?
O risco diminui quando o contrato possui objeto bem definido, o médico tem autonomia técnica e sobre sua agenda, atende a vários tomadores, pode se fazer substituir por outro profissional e emite nota fiscal exata por serviço prestado.
Como fica a tributação da PJ médica em 2027 com a entrada da CBS?
Em 2027 a CBS passa a ser cobrada integralmente e o PIS/Cofins acaba. A PJ médica tem direito à redução de 60% por prestar serviço de saúde previsto no Anexo III. No Simples Nacional, o tributo segue no DAS, salvo opção de recolher por fora.

Contabilidade Stella: contabilidade consultiva em Osasco e Grande São Paulo

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PJ médica · Clínicas · Reforma tributária · Planejamento tributário

Categoria: Saúde PJ
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Felipe Dutra Nicácio

CEO da Contabilidade Stella · CRC-SP

CEO da Contabilidade Stella, segunda geração após a fundadora Ângela Stella. Especialista em planejamento patrimonial e sucessório com mais de 35 anos de tradição da casa.

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